terça-feira, 31 de março de 2009

Happy Go-Lucky


Mais um tiro no alvo de Mike Leigh, o mestre britânico, aqui num verdadeiro tratado sobre o poder redentor do optimismo. Contrariamente ao que se tem dito, não falta negrume à história (ele existe até em doses extremas na personagen nemésis da protagonista - o fanático instrutor de condução), simplesmente ele constitui-se como um desafio permanente à extraordinária capacidade de conter e irradiar alegria de Poppy, a desengonçada mas atenta educadora de infância que entra no filme de bicicleta e sai num barco a remos, sem ter de facto aprendido a conduzir um automóvel (imagem perfeita para a incapacidade para cooperar com essa raíz de tanto mal estar em grandes metrópoles como esta Londres de início de milénio).

The misfits


"I was very intrigued with [this] scene, because I thought it was a scene very hard to do for an actor. It was a scene in which you had to kind of abandon yourself." Diz Inge Morath, a fotógrafa, no set de "The Misfits" ("Os Inadaptados"), um argumento de Arthur Miller (à época companheiro de Marilyn) filmado por John Huston (especialista em apanhar anjos em queda: veja-se Ava Gardner e Richard Burton em "A Noite da Iguana"). Os personagens/actores eram a própria Marilyn, Clark Gable e Montgomery Clift. Para os dois primeiros seria o seu último filme, o que encaixa de forma estranha no tom crepuscular de tudo aquilo.

domingo, 22 de março de 2009

Esposende


Dois dias no Minho, para calar o rumor polifónico da cidade, para despertar o olfacto das pinhas e maresias; para colecionar visões de bizarrias em grandes armazéns de preciosas quinquilharias; para relembrar as grandes jornadas estivais, com avós, tias, um grande arsenal de frangos, tendas e plásticos; para regressar ao grande coração do tempo e esperar notícias dos amigos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Mais uma corrida, mais uma viagem


Corrida do Dia do Pai. 15 de Março. Boavista, Porto. 10 quilómetros feitos em desunhados 47 minutos e 7 segundos de corrida feitos pelo Major Tom e dedicados ao quase-pai babado Elói e à sua quase-filha adorada Júlia, infanta de Espinhaço. Estamos à tua espera, caxopa!

Encontros imediatos #3


Mia Farrow num gradeamento em Turim.

domingo, 15 de março de 2009

"Francelos"


(a testar o estojo da Faber-Castell)

João Donato. 75 anos

No ano em que cumpre três quartos de século, um dos grandes da MPB, só conhecido por cá praticamente por intermédio dos inúmeros intérpretes do seu vasto reportório como compositor, visita-nos esta noite, na Casa da Música, com alguns amigos. Lá estarei para melodias simples mas de insubsitituível brasileirismo como esta:

quinta-feira, 12 de março de 2009

Encontros imediatos #2


Sophia Loren ao lado do Duomo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Encontros imediatos #1


Luchino Visconti numa rua de Milão.

Wayne Shorter

O melhor pupilo de John Coltrane, há cinco décadas a explorar a arte do sax tenor. Amanhã à noite, na Casa da Música. Imperdível.

sábado, 7 de março de 2009

Career Girls, de Mike Leigh


Às vezes é com pequenos filmes que nos lembramos como é bom gostar de cinema. Este, por exemplo, de que praticamente não reza a história, vi-o em Turim, há uns onze anitos atrás. Relata de forma simples o reencontro de duas amigas depois de alguns anos de afastamento, e alterna entre esse presente e o passado em sketchs ordenados de forma afectiva, de acordo com um dispositivo narrativo relativamente convencional (e talvez por isso mais difícil de levar a cabo de forma eficiente). Há aqui uma generosidade e frescura tão grande nas actrizes (de resto, algo comum nos filmes de Mike Leigh), apoiada em diálogos e situações tão cómicas como comoventes, que é impossível não ficar emocionado durante os dias seguintes, e com vontade de ouvir de novo todo o reportório dos The Cure até ao crucial "Head on the door". E tudo se passa em Londres, prolongando o eco da viagem recente e trazendo à memória a visão fugaz de dois rapazes imberbes num banco do Hyde Park, a abrir com ar curioso uma mochila e a tirar de lá o vinil de "The rize and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars". Não resisti a sussurar ao passar: "Pssst! To be played at maximum volume..."

quinta-feira, 5 de março de 2009

Buda no piso superior do British Museum

Butt!


Sugestiva imagem enviada por um fã, como muitas das que compõem a página da publicação semi-alternativa de culto Butt Magazine. Neste número, como em muitos anteriores, os leitores voltam a marcar encontro com a sua própria diversidade, de forma divertida, erótica, irreverente, desinteressada (mas nem por isso menos engajada) e muito, muito inteligente.

domingo, 1 de março de 2009

Prado da Rocalva (Gerês)

Percurso da Rocalva (Gerês)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A view from the bridge


E em Londres, aos 33 anos de idade, assisti à melhor encenação teatral da minha vida. No teatro Duke of York, situado na rua londrina da especialidade (St Martin's Lane), com um texto magnífico de Arthur Miller e um elenco brilhante (Ken Scott, Mary Elizabeth Mastrantonio e a promissora Hayley Atwell, que tinha visto num dos últimos Woody Allens britânicos) foi o dinheiro mais bem gasto de toda a estadia.

London, London #2

Às vezes é difícil definir um lugar. Sabemos o que gostamos e o que não gostamos, mas o balanço final fica num limbo inclassificável (apreciação naturalmente condicionada por uma visita de cinco dias). Quanto a Londres, sei que obviamente apreciei: o cosmopolitismo, o acervo artístico, o ritual da 'pint' ao fim da tarde, o apreço pelo teatro e o leque de opções nesse âmbito, os parques e a coerência arquitectónica, entre outras coisas. Depois há o que não gostei: o fluxo permanente de hordas de pessoas em todo o lado e a toda a hora, a 'agressividade' do clima humano nocturno (mesmo no famoso Soho, com toda a sua gay-friendly aura), a escassa cortesia e qualidade da oferta hoteleira, a cerveja morna e sem gás, os preços inflacionados, entre outras várias coisas. Talvez possa simplesmente concluir: para visitar, e sem moderação, mas com pré-aviso: a vontade de voltar a casa pode surgir mais depressa do que contamos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

London, London



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A educação de Flaubert


Outro clássico, uma das obras principais de Flaubert. Fréderic, o protagonista, é um fanfarrão provinciano com aspirações intelectuais e aristocratas e personalidade ambígua. Envolve-se com as mulheres e aborrece-se com as que consegue conquistar, mantendo essa idolatria erotizada pela Mulher inalcançável, aqui personificada pela Senhora Arnoux, protótipo da burguesa parisiense da época. A narrativa também é eco da História, e o livro é um retrato pormenorizado (por vezes difícil de acompanhar, na ausência de referências) das convulsões sociais que culminaram na crise de 1848, para a qual, ao constatar as reviravoltas dos endinheirados entre a velha ordem e a causa republicana, apetece aplicar a máxima do príncipe de Salina, no romance de Lampedusa: "às vezes é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma". Para além disso, o livro, nesta nova edição da Relógio D'Água é um objecto que é um mimo tocar e contemplar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O mundo de Elza


"Elza Soares nasceu em 23 de Junho de 1937 no Rio de Janeiro. Filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro. Cantava, desde criança, com a voz rouca e o ritmo sincopado dos sambistas de morro. Aos 12 anos, já era mãe e aos 18, viúva. Foi lavadeira e operária numa fabrica de sabão e, com 20 anos aproximadamente, fez seu primeiro teste como cantora." (daqui)
Em cima, num registo bossa nova (ela que é toda samba). Em baixo, a usar a voz numa marcha contra a discriminação em Madureira.

A que foi mulher do mítico Garrincha e fez dueto vocal com Louis Armstrong vai estar na próxima sexta, dia 20, num encontro imperdível na Casa da Música.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Magnólias


Elas andam por aí...

Serralves domingueiro

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Beispiel #5

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Há minutos, na Casa da Música...

Uma semana com tudo o que um trabalho de pressão pode oferecer, incluíndo a descarga de um relâmpago no edifício onde estás a tentar travar conhecimento com um grupo de adultos desnorteados, não podia ter melhor final do que este fraseado musical:

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Da dificuldade em desenhar objectos de memória...

sábado, 31 de janeiro de 2009

Praia do Atlântico (V.N.Gaia)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Meio-Irmão


Da Noruega havia Knut Hamson, nobelizado com o célebre romance "Fome". Décadas passadas a literatura do país avança com uma figura de proa com obra muito mais desconcertante para o leitor deste início de milénio: Lars Saabye Christensen. E com que obra o conheço: "Meio-Irmão", fresco que acompanha a saga heróico-absurda de quatro gerações de uma família matriarcal. É Oslo e a paisagem dramática dos fiordes que enquadram a história (narrada por um personagem que só nasce já vai a trama a meio), mas não parecem existir fronteiras para o encanto que estes personagens suscitam, em boa medida pelo carinho e enlevo poético com que são apresentadas pelo autor. Durante o tempo de leitura (aditivo, nas suas 620 páginas, na oportuna edição portuguesa da Cavalo de Ferro), sentimos a sua companhia e apetece no final beber um brinde à sua sorte. Pois seja, com este Martini com gelo: à tua, Lars!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Beispiel #4


Acrílico em tela 40x25cm

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Prognóstico: chuva

O vento a agitar a terra, o nevoeiro a transformar a paisagem numa massa abstracta, gaivotas desfeitas nas bermas da estrada, animais a correr de encontro aos faróis, o rumor ancestral do mar ao fundo. Nestas alturas quase sentimos tocar a metamorfose do mundo.

Major Tom na TV

Na era do audiovisual, multiplicam-se canais de TV que se formam como as antigas rádios locais, direcionados para um público específico e criando a sua pequena legião de fãs seguidores. Foi um destes que visitei, ontem, para participar num programa "jovem, assim, tás a ver, muito relax, muito cool, conversa divertida, mas naquela base", como representante da ILGA. Escolheram como tema do programa (diário e em directo, parabéns à equipa por isso): homosexualidade (assim mesmo,com direito a erro ortográfico). E a pequena conversa possível, amputada aqui e ali pelo implacável rigor rítmico televisivo, audiências oblidge, lá se fez: "achas que ainda há discriminação? a culpada é a Igreja? o que deve fazer um jovem que nos estiver agora a ver e sentir isso?". Os apresentadores, um rapaz e rapariga com idade de quem devia estar àquela hora a beber o seu leitinho com cevada (de resto, tal como toda a equipa que encontrei, o que me deixou intrigado), prosseguiram as suas considerações sobre a sexualidade um do outro e prometeram um programa agitado para o dia seguinte. O tema assegurava grande participação e um debate acesso: como é ser... actor de telenovela.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Coração de pedra

sábado, 24 de janeiro de 2009

Era uma vez uma casa na rua Duque de Palmela #3

Rua Duque de Palmela 111

Pelo lado dos lódãos ao fim do dia
depressa se chega agora no verão
à pedra viva do silêncio
onde o pólen das palavras se desprende
e dança dança dança até ao rio.


Eugénio de Andrade

Era uma vez uma casa na rua Duque de Palmela #2

Era uma vez uma casa na rua Duque de Palmela #1

Formação para técnicos: conclusões



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A dança do self

Com Mark Savickas, intelectual norte americano cuja conferência assisti ontem em Lisboa, aprendemos que a identidade é algo que se consolida com a possibilidade de auto-narração. Ou seja, por outras palavras: quanto mais me relato, mais me torno quem sou. Com um ar bonacheirão, e conquistando a audiência com cada frase, medida cautelosamente e ilustrada com gestos, imagens e pausas calculadas, contrariou a ideia de uma esquizofrenia do self (ideia querida, talvez, aos proponentes da teoria da perfomance queer), em detrimento da auto-representação como a definição de temas (como na música clássica, aqueles que os músicos submetem a variações) comuns a todo o percurso individual; eles podem apresentar várias matizes, mas ao fim de contas mantêm-se: a fuga, o poder, a relação, o desejo, etc. Talvez seja isso o interessante no outro: a infinitude de paletas, oscilações a partir de um mesmo eixo com que ele se pode apresentar ao mundo.

Mr P. e a amendoeira

Lareira (pormenor)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Viajar para desenhar


Livro editado pelo Eduardo Salavisa (autor do blog linkado ao lado), que é uma maravilhosa viagem pela paixão pelos cadernos de viagem. Inclui testemunhos de uma série de autores e exemplos da utilização do desenho como prática educativa e como exercício de expressão. É que há lugares onde as palavras não vão.