Quando era petiz, imaginei que os adultos eram uma espécie diferente da minha; feitos de comandos e regras, a remar contra tudo o que me parecia ser a ideia de felicidade, lembro-me de me assustar com a hipótese de estar rodeado de seres robotizados, cujas entranhas revelariam não veias, carne e órgãos mas fios, circuitos e substâncias cibernéticas. E se continuasse a acreditar nessa ideia e ela se revelasse verdade quando estivesse a um passo de me tornar eu próprio um adulto? Talvez pudesse escrever um romance acerca disso! Como nesta outra sugestão do valter, o último livro a ser discutido na comunidade de leitores. Uma leitura aditiva desde as primeiras páginas, que nos introduzem numa história digna de ficção científica, mas que percebemos ser um pretexto para tratar as grandes questões que sempre assombraram a literatura: o amor, a condição humana, o livre arbítrio e (sim, também esse, como sempre) o(s) sentido(s) da vida. Um auspicioso início de carreira para qualquer escritor e um belo punhado de horas bem passadas para qualquer leitor.
domingo, 31 de outubro de 2010
"Tudo tem importância!", de Ron Currie Jr
Quando era petiz, imaginei que os adultos eram uma espécie diferente da minha; feitos de comandos e regras, a remar contra tudo o que me parecia ser a ideia de felicidade, lembro-me de me assustar com a hipótese de estar rodeado de seres robotizados, cujas entranhas revelariam não veias, carne e órgãos mas fios, circuitos e substâncias cibernéticas. E se continuasse a acreditar nessa ideia e ela se revelasse verdade quando estivesse a um passo de me tornar eu próprio um adulto? Talvez pudesse escrever um romance acerca disso! Como nesta outra sugestão do valter, o último livro a ser discutido na comunidade de leitores. Uma leitura aditiva desde as primeiras páginas, que nos introduzem numa história digna de ficção científica, mas que percebemos ser um pretexto para tratar as grandes questões que sempre assombraram a literatura: o amor, a condição humana, o livre arbítrio e (sim, também esse, como sempre) o(s) sentido(s) da vida. Um auspicioso início de carreira para qualquer escritor e um belo punhado de horas bem passadas para qualquer leitor.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Educadores pela inclusão
Já aconteceu o primeiro momento de formação de educadores sobre orientação sexual e identidade de género. Foi no Porto, e como primeira experiência correu lindamente: trocaram-se ideias, partilharam-se conteúdos, foi fornecido material pedagógico e experimentaram-se algumas dinâmicas que podem ser aplicadas em contextos educativos. Há muito que isto era preciso, e é uma boa oportunidade para professores, psicólogos, animadores e outros profissionais que trabalham com jovens.
Relembrando, o Projecto Inclusão da rede ex aequo prevê mais encontros e as formações são livres.
Informações e inscrições: inclusao@rea.pt
Relembrando, o Projecto Inclusão da rede ex aequo prevê mais encontros e as formações são livres.
Informações e inscrições: inclusao@rea.pt
Smile or Die
Uma interessante reflexão animada sobre uma realidade que se aproxima cada vez mais da nossa... Não se riam! Fiquem fulos!
domingo, 24 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Oficina 'Um livro sem letras': projecto (adiado) #2
Habituados como estamos ao verbo, depois da tão árdua tarefa que é dominar minimamente o mistério da linguagem escrita, criar uma história sem letras revelou-se uma empreitada mais complicada do que parecia à partida. Apetecia, mas quem se atreve nestes tempos de austeridade económica, cultural e mental a pedir um ano de licença sem vencimento para se dedicar à arte do desenho?
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
His name is Bond. Justin Bond
Integrado no TRAMA (Festival de Artes Performativas), o concerto/performance de Justin Bond, em boa hora regressado ao Porto, permitiu assistir a duas horas (mais uma do que o previsto inicialmente), de pura e espontânea performance vocal, teatral e política, abarcando temas como o amor, a falta dele, o suicídio dos adolescentes gays, o casamento e a economia ao estilo de um verdadeiro contador de histórias.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
"A ofensa", de Ricardo Menéndez Salmón
Uma peça literária feita de uma poesia milemétrica, onde tudo resulta e nada está a mais, ao contrário de muita literatura volumosa que enche as nossas montras. Uma pequena mas desconcertante narrativa sobre um personagem engolido pela vertigem da História, que é um tratado sobre os estados da alma em situações limite. Nota máxima para mais um livro da comunidade.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Broken Social Scene
A banda com mais tusa do momento vem do Canadá. Vemo-nos por lá, dia 8, na Sala 2.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Vocação de ave rara
Por ouvir Satie no trabalho; por andar de bicicleta nuns dias e de Vespa amolgada noutros; por correr e gostar de correr; por ser canhoto; por não ver televisão; por ver filmes europeus; por comentar os rabos errados; por estar sempre a leste; por não conhecer os sítios in; por gostar dos sítios out; por querer estar sempre a leste; pelo Natal que me dá a volta à tripa; por ler; por nunca me rir do que devia e as anedotas me deprimirem; por ficar feliz com o que só lembra ao diabo; por saber o que ninguém mais sabe e por nunca saber o que todos sabem...
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Au bout de souffle
Num dia solarengo, mais uma corrida bem disposta nas margens do Douro. À terceira meia-maratona reforço a confiança e, apesar da constipação mal curada e da redução no treino por causa da chuva, consigo encurtar o meu tempo em dois minutos. Genial, como diriam nuestros hermanos. Para a organização, notas negativas: falhas nos abastecimentos: insuficientes, mal colocados e guarnecidos apenas com água; e um atraso de meia hora no início da prova. 21km e 97m feitos em 1h45'50'' (sem o desconto da partida), passaram agora a ser a próxima meta a derrubar. E isto (para responder a quem me pergunta o que é que eu vejo nisto das corridas), no rame-rame de quem acorda com o despertador para compromissos gastos todos os dias, é como a luz do farol para um navio perdido em noite de borrasca.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Non ma fille tu n'ira pas danser
Há actores e actrizes que admiramos porque são profissionais, matéria moldável e generosa para o que os escritores e realizadores queiram fazer deles. Por isso, valem em cada filme o que vale o trabalho destes e o que a história e as personagens nos dão. Depois há os que possuem a tal da persona, e que pelo seu carisma nos enfeitiçam, levando-nos a lugares desconhecidos recheados de emoções. Chiara Mastroianni, que tem na sua composição genética os ingredientes ideais, pode agora, no meu coração, colocar-se nesse clube tão restrito e especial. Fá-lo num filme mal amado por críticos e público (éramos somente quatro de nós ontem, naquela pequena mas cada vez mais preciosa sala do Teatro do Campo Alegre), mas isso quanto a mim ainda faz refulgir mais o brilho deste novo filme de Christophe Honoré, que aprendi agora a amar. A actriz em versão musa musical
Leituras em dia
Vargas Llosa
Só por ter escrito "A tia Julia e o escrevedor" fazia sentido. Não precisava, mas mereceu receber o dito.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Formação para a inclusão
A divulgar!
A rede ex aequo - associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes, através do seu Projecto Inclusão, realizará um conjunto de formações (gratuitas!) sobre orientação sexual e identidade de género aberta a todos os profissionais educativos que estejam interessados. Estão previstas 6 formações, que decorrerão ao longo de um dia, em 6 distritos diferentes do país, entre Outubro e Dezembro de 2010.
Datas das formações confirmadas:
- Santarém, 9 de Outubro, IPJ de Santarém
- Guarda, 22 de Outubro, IPJ da Guarda
- Porto, 23 de Outubro, IPJ de Porto
- Faro, 6 de Novembro, IPJ de Faro
- Funchal, 27 de Novembro, em Escola Secundária a determinar
- Setúbal, 11 de Dezembro, IPJ de Setúbal
O prazo de inscrição em cada formação termina uma semana antes da realização da mesma, ou até atingir o número máximo de presenças. As inscrições devem ser enviadas para: inclusao@rea.pt.
A rede ex aequo - associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes, através do seu Projecto Inclusão, realizará um conjunto de formações (gratuitas!) sobre orientação sexual e identidade de género aberta a todos os profissionais educativos que estejam interessados. Estão previstas 6 formações, que decorrerão ao longo de um dia, em 6 distritos diferentes do país, entre Outubro e Dezembro de 2010.
Datas das formações confirmadas:
- Santarém, 9 de Outubro, IPJ de Santarém
- Guarda, 22 de Outubro, IPJ da Guarda
- Porto, 23 de Outubro, IPJ de Porto
- Faro, 6 de Novembro, IPJ de Faro
- Funchal, 27 de Novembro, em Escola Secundária a determinar
- Setúbal, 11 de Dezembro, IPJ de Setúbal
O prazo de inscrição em cada formação termina uma semana antes da realização da mesma, ou até atingir o número máximo de presenças. As inscrições devem ser enviadas para: inclusao@rea.pt.
Para quem não estiver a par
Nova lei de identidade de género
Foram aprovadas, no dia 1 de Outubro de 2010 em Assembleia de República, as duas propostas de alteração da lei que regula o procedimento de mudança de sexo e nome próprio no registo civil que, até agora, apenas era possível através de uma acção judicial em tribunal que se arrastava durante anos.
Com 111 votos a favor, 2 abstenções e 90 votos contra a proposta do Governo, e 108 votos a favor, 76 abstenções e 19 votos contra a proposta do Bloco de Esquerda, ambas as propostas seguirão agora para a comissão da especialidade para se tornarem numa proposta única.
Podes ler em detalhe a Proposta de Lei 37/XI, da autoria do Governo, intitulada "Cria o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil e procede à 18.ª alteração ao Código do Registo Civil", assim como a sua Actividade Parlamentar e Processo Legislativo.
E ler em detalhe o Projecto de Lei 319/XI, da autoria do Bloco de Esquerda, intitulado "Altera o Código do Registo Civil, permitindo a pessoas transexuais a mudança do registo do sexo no assento de nascimento", assim como a sua Actividade Parlamentar e Processo Legislativo.
Em breve, mediante a apresentação numa conservatória do registo civil de um relatório elaborado por uma equipa clínica multidisciplinar de sexologia clínica que comprove o respectivo diagnóstico, será efectuada a mudança de sexo e nome próprio no prazo de 8 dias.
Via Fórum rede ex aequo
Foram aprovadas, no dia 1 de Outubro de 2010 em Assembleia de República, as duas propostas de alteração da lei que regula o procedimento de mudança de sexo e nome próprio no registo civil que, até agora, apenas era possível através de uma acção judicial em tribunal que se arrastava durante anos.
Com 111 votos a favor, 2 abstenções e 90 votos contra a proposta do Governo, e 108 votos a favor, 76 abstenções e 19 votos contra a proposta do Bloco de Esquerda, ambas as propostas seguirão agora para a comissão da especialidade para se tornarem numa proposta única.
Podes ler em detalhe a Proposta de Lei 37/XI, da autoria do Governo, intitulada "Cria o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil e procede à 18.ª alteração ao Código do Registo Civil", assim como a sua Actividade Parlamentar e Processo Legislativo.
E ler em detalhe o Projecto de Lei 319/XI, da autoria do Bloco de Esquerda, intitulado "Altera o Código do Registo Civil, permitindo a pessoas transexuais a mudança do registo do sexo no assento de nascimento", assim como a sua Actividade Parlamentar e Processo Legislativo.
Em breve, mediante a apresentação numa conservatória do registo civil de um relatório elaborado por uma equipa clínica multidisciplinar de sexologia clínica que comprove o respectivo diagnóstico, será efectuada a mudança de sexo e nome próprio no prazo de 8 dias.
Via Fórum rede ex aequo
domingo, 3 de outubro de 2010
Weekend with the girls
Alguns resultados do workshop intensivo que decorreu durante um fim de semana inteirinho cá em casa entre tios e sobrinhas! Love you, girls!
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Lei de Identidade de Género já!
O destino da vida de muitos cidadãos portugueses é decidido nos próximos dias. Trata-se de legislar em prol do livre arbítrio a que todos devemos ter direito relativamente à nossa condição enquanto pessoas e de assim remover um quisto 'medieval' da nossa democracia. Depois virá outro combate: contra o preconceito e a favor da dignidade e da realização plena dos cidadãos transexuais. Pensar nisto como uma questão menor é errado. Nunca como agora foi tão urgente lutar pelos nossos direitos civis.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Plano de cinema alternativo
O retrato delicado do enamoramento de dois rapazes, filmado num ritmo lento, supreendentemente ajustado à forma como estas coisas realmente acontecem: com recuos, hesitações, passos impulsivos e novos recuos. Com poucos personagens e quase inteiramente suportado por actores espontâneos e generosos na sua entrega, com uma narrativa económica e diálogos parcos, não tardou que a plateia (essa entidade hoje tão treinada para ver o cinema como um bom pretexto para deglutir pipocas e que se aborrece se estas acabam primeiro que a projecção) começasse a manifestar o seu desconforto e ansiedade. Mas quem já conheceu uma destas amizades e sentiu na pele este desconcerto que é o da descoberta de que não somos bem quem pensamos ser, verá bem empregue o tempo a ver este filme maravilhoso que encerrou o festival de cinema Queer Lisboa.
domingo, 26 de setembro de 2010
Weekend Lx
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Em modo corrida...
Na recta final estão os preparativos para a próxima grande corrida, mais uma meia maratona. O novo percurso, entre Massarelos e Matosinhos, sempre pela beira-rio e depois junto ao mar, revela-se cada vez mais familiar com a sua panorâmica cinematográfica (uma selecção auspiciosa no mp3 ajuda...). Acabo por me esquecer novamente de que se deve seguir um plano de treinos adequado e apercebo-me tarde de mais que cometi alguns erros estratégicos nas últimas semanas. Para corrigir, pelo menos na alimentação vou tentar seguir os conselhos dos especialistas: muitos carboidratos e líquidos (não alcoólicos, hélas) nos últimos três dias antes da prova. A ver se ainda me lembro como fazer massas e pizzas. Entretanto, novos sneakers procuram-se...
"Somos o Esquecimento que Seremos", de Héctor Abad Faciolince
A propósito deste livro, um registo autobiográfico que inaugurou o novo ciclo de leituras da comunidade de leitores aqui ao lado na BMAG, pensei muito no papel que a família desempenha, para o bem e para o mal, enquanto suporte emocional e formativo. É algo inescapável e aprendemos a aceitá-lo com maior ou menor resignação ou resiliência. Mas também me fez pensar no papel da memória e do registo dessa memória enquanto resgate da história, não só a ciência canónica e de dimensão macro, mas também a do indivíduo e do seu património pessoal, que reflecte como uma grande bola de espelhos a história dos grandes colectivos e da sua mudança. E depois há a imagem inusitada de uma relação entre pai e filho e o retrato desse homem que quis dar o seu contributo para um mundo mais saudável e uma Colômbia mais livre, que me dá vontade de oferecer este livro a todos os pais, filhos e idealistas (ainda que da corrente céptica, como eu).
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll
Há livros que se lêem como se alguma voz cá dentro nos ditasse ainda um sumário para uma lição que ficou perdida, na escola universal do intelecto. E este é um deles, um dos que Calvino nomearia como um clássico, um canône literário anglo-saxónico, que reconheço ter lido sem prazer e até alguma perplexidade, por não vislumbrar nele a matéria de que são feitas as narrativas que nos agarram às palavras e aos objectos-livros. Diria que, num combate onírico-literário-juvenil, a Alice perderia em qualquer altura com um, digamos João Sem Medo, desse texto tão mais deslumbrante e desconhecido que o José Gomes Ferreira nos deixou (engraçado, é mesmo daqui que vem a frase familiar: "É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir". Ele há coisas...).
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Muxima - "Amanhã"
Foi no sábado, na Casa da Música, que reencontrei as canções dos Duo Ouro Negro. Valem a pena ser ouvidas e re-interpretadas (com um gingar de anca e um quase aperto de nostalgia no estômago). Obrigado, Muxima(s).
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Troubling Education, de Kevin Kumashiro
"Think outside the box", repetem os detectives para si mesmos quando pretendem desvendar um misterioso crime. Como quem diz: pensa noutra língua, fecha os olhos para ver melhor. É essa a premissa deste ensaio que reflecte de forma desafiante sobre o papel da educação na construção de modelos sociais inclusivos, preservando a especificade das diferenças. É certo que remete para realidades que nos podem parecer um pouco alienígenas a um primeiro olhar (as dos turbulentos contextos culturais norte-americanos), mas tudo o que ali se fala e testemunha faz sentido em qualquer lugar do mundo e representa, na essência, a defesa de um olhar crítico, de vigilância permanente, em que o activismo encontra na educação uma alavanca essencial e imprescindível para a mudança social e política, que por sua vez se reflecte num novo activismo e numa nova educação, numa lógica dialógica permanente. Mais sobre o autor aqui.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Lições de vida
Se procuras um lugar sossegado num café (para ler ou simplesmente contemplar o ar) afasta-te das pessoas sós. É certo e sabido que mais cedo do que tarde vão pegar num telemóvel e desatar a tagarelar incessantemente. Se realmente queres paz, procura casais. Esses terão aprendido com a relação, ainda que inadvertidamente, a saber respeitar o valor do silêncio.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Histórias da cidade do Porto
Como com frequência me apercebo, por contacto profissional, é nos relatos autobiográficos que podemos tomar contacto de forma mais completa com a diversidade de experiências sociais, culturais, políticas, económicas, enfim, humanas, que compõem a história de uma cidade. É nesses momentos, também, que dou conta com espanto da vastidão do património de conhecimento que desaparece cada vez que cada pessoa morre. Por isso me parece tão fundamental escrever, registar, traduzir memórias pessoais. Porque só esse ponto de vista tão individual, inserido numa polifonia de vozes biográficas, poderá ser capaz de conceder verdade aos factos e transportar para o presente o nosso passado colectivo. Sobretudo quando ele se intersecta de forma tão directa com a nossa própria história.
sábado, 28 de agosto de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Botas a caminho...
... na Serra da Boa Viagem (fotos daqui). É preciso madrugar, mas isso nunca custa se o dia nos reserva um passeio. Depois há o prazer de explorar sítios que nunca se conheceriam doutra forma, moldados que estamos pelo mundo acessível por estradas. A caminhada terminou na praia, com a areia e a água fria a servir de massagem aos pés fatigados. Para arquivar no departamento das boas recordações.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
French fries
Num engarrafamento de Agosto, da neura domingueira nasceu em conversa com amigos esta ideia: não devíamos ter direito a ser ressarcidos por este desperdício de tempo? Algo como uma compensação depois do tempo regulamentar num jogo de futebol, todas as horas perdidas em filas de trânsito, somadas e devolvidas à nossa vida. "Ora portanto, o senhor Francisco devia ter falecido agora, mas como temos aqui um crédito de 2 anos e meio, vai ficar pela terra mais uns tempitos". Ideia pertinente mas perniciosa: a quem compete definir o que é o tempo desperdiçado quando a nossa própria vontade é tão volátil? Nunca vos aconteceu dourar o passado (mesmo as coisas que na altura não causaram qualquer frisson) ou maldizer uma experiência inofensiva cujo lado negro acabou por emergir anos depois? Não é um bocado aquela conversa do: "e se eu tivesse feito isto", "e se eu não me metesse naquilo", numa auto-ilusão de que qualquer caminho alternativo seria sempre mais bem sucedido, mais aproveitado, rumo à felicidade e à realização pessoal? A verdade é que esses caminhos são, como li algures, ramos secos que não voltam a medrar. E, como numa canção recente dos Arcade Fire, se pudéssemos reaver o tempo morto, íamos matá-lo de novo. Mas já repararam que as batatas fritas são sempre mais apetecíveis no prato do lado?
Antes de agora
Sem cabeça para mais nada do que mergulhar na urbano-depressão, com posinhos de nostalgia (para ouvir enquanto as nuvens não dispersam e não se vislumbra como aguentar outro dia de trabalho).
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Aonde a escrita nos levar
Há livros que se nota serem fruto de um simples e inegável prazer pela escrita. Imaginamos os autores a escapulir dos seus afazeres profissionais e domésticos para escrevinhar quase às escondidas algumas linhas, como quem pratica uma necessidade ou cede a um impulso. E chegam às mãos do leitor assim, sem grande apuro formal, investimento criativo, labor ou outras complexidades literárias. É só por perceber isso que não se desiste da leitura de um trabalho sem narrativa, história e de personagens que lutam pela sua própria existência enquanto tal. É nos interstícios da quase-história-que-nunca-chega-a-acontecer que surge o mais interessante que este livro oferece: pequenas reflexões sobre a condição da escrita, do escritor, da demiurgia e das pequeninas intersecções entre a vida e a arte.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Alma tuga
Andamos todos à procura de um lugar no céu. É isso que nos move neste portugalito moderno e antigo: a culpa, essa espécie de consciência adquirida à má fé. A verdade seja dita: só funcionamos à ameaça, seja ela de um pontapé, cachaço, lambada ou desgraça da alma. E não importa muito se somos crentes ou ateus, a matriz moral está lá, como uma tatuagem ou um tecido nervoso que nos baliza o quotidiano. E assim vamos, transitando de um objecto de culpa para outro: da infidelidade para a responsabilidade ecológica; da soberba para a participação cívica. Inventamos novos pecados: o trabalho infantil; o sexo desprotegido; a toxicodependência; o desperdício. E fugimos deles, não graças a uma clarividência ética ou pelo anseio de nos envolvermos num projecto de comunidade global, mas do muito humano e muito prosaico medo judaico-cristão de cair no inferno, tenha ele o formato que cada um lhe queira dar. Eu por mim, ainda assim, temo aqueles que nada temem, por me parecer que se eles tomarem conta disto, nada nos vai separar do abismo. E aquilo que era uma hipótese de país, deixa de o ser.
sábado, 7 de agosto de 2010
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