(em Nikolaikirche, Berlim)
A tentar, sem grande sucesso, retomar o interesse pelos estudos (pastilhas de motivação procuram-se), vagueio pelas prateleiras das livrarias à procura de títulos e autores apelativos. À procura de novas reflexões sobre os movimentos sociais (e, mais especificamente, sobre os chamados 'novos movimentos sociais') cruzei-me com este "Nove lições de Sociologia", do conhecido Michel Wieviorka, que numa linguagem desmistificada e crítica procura sintetizar vários discursos e correntes de pensamento sobre fenómenos como a violência, o racismo, novas identidades e sobretudo, essa relação tão tensa entre actor e estruturas, cuja interpretação tem criado cismas tão profundos nesta ciência e que se constitui como o eixo a partir do qual a mudança pode ser descodificada.
Outro romance (novela?) de Cunningham sem grande chama, lido quase como quem procura no último parágrafo a redenção das trezentas páginas anteriores. Existem ingredientes que alimentam essa esperança, que se concentram nas personagens e na sua pequena história individual (e era aí que residia o fascínio singular de livros que não trouxeram fama ao autor, como "Sangue do meu sangue" ou "Uma casa no fim do mundo"). Mas a vontade de erguer a fasquia da narrativa a outros patamares, um certo ensejo de épico e ensaística, águas onde evidentemente nem todos sabem navegar, tornam flagrantes os limites do escritor (precisamente para além do material humano e quotidiano que poderia evidenciar a sua identidade).
Novas sessões do Projecto Educação LGBT em Valongo, Castelo de Paiva e Resende. Quanto mais longe dos centros urbanos, maior é a necessidade de 'picar pedra', sobretudo em contextos pouco habituados a debater o conceito da diversidade (e onde aparentemente essa diversidade é menos visível) e sobretudo a chamar as coisas pelos nomes, no que diz respeito à identidade sexual. É o activismo gay on the road e fico feliz por poder participar.
Um maravilhoso filme artesanal que é imperativo conhecer, para todos os amantes do cinema. Adaptação feliz de um argumento original de Jacques Tati, é uma singela história de amor à delicadeza e à linguagem com que se constrói um humor sui generis, muito feito de pequenos pormenores, para o que contribui a adaptação cuidadosa feita por Sylvain Chomet (valor seguro depois de "Les Triplettes de Belleville" ou da curta "Les Vielle Dame et les Pigeons"). Escapou-me no circuito comercial (onde de qualquer das formas só podia ser visto em salas de shopping) mas felizmente moro a dois passos da Casa da Animação, que em boa hora organizou esta projecção.
No simpático espaço do Estúdio Zero, foi interessante assistir a esta singular peça feita de diálogos banais entre dois personagens sem nome e sem história - "Holiday", dos australianos irmãos Cortese. Não existe propriamente uma narrativa, e não fosse o caso de a peça estar legendada, o mais provável seria acreditar que os actores estavam basicamente a improvisar. É verdade que nas minhas mãos a hora e vinte de duração poderiam ser 'editadas' a metade do tempo. Mas, por outro lado, a banalidade precisa de tempo para se revelar assim: recheada de pequenas pepitas filosóficas.
Regresso hoje às sessões de cinema de autor, para ver um filme japonês integrado num ciclo dedicado a "Todas as famílias" (título ambicioso relativamente à amostra de filmes, necessariamente redutora se pensarmos um pouco na variedade de modelos familiares que podemos encontrar). De qualquer das formas, uma sessão fora dos multiplex, de geografias culturalmente periféricas, longe do pivete a pipocas, é basicamente algo de imperdível. Bora?
Numa manhã em que o São Pedro decidiu pôr em standby a chuva que se aguardava, completei com a mana mais uma divertida prova do Dia do Pai no Porto. Já em meados de Março, o projecto maratona 2011 está atrasado, mas cada prova destas é um novo alento de motivação. Preparar-me para elas é carburar corpo e mente para os verdadeiros desafios do dia-a-dia: o trabalho, a participação como livro humano numa nova ronda de bibliotecas, o tímido regresso ao mestrado, os compromissos pessoais e familiares, as leituras e os quejandos da vida.
Um gigantesco trabalho de investigação jornalística e reconstituição histórica de acontecimentos que a História nunca escreveu e que precisam de ser salvos do esquecimento: os massacres de Khan Younis e Rafah em 1956. Joe Saco vai além de Palestina, o seu opus anterior e deixa-nos a sós com um trabalho difícil mas cuja clareza e importância nos devolve o investimento de tempo com um conhecimento profundo sobre a realidade retratada.
Enquanto hoje volta à Assembleia da República a decisão sobre a lei de identidade de género (já sem possibilidade de veto presidencial no caminho), cruzei-me com uma imagem da Pantera Cor-de-Rosa, e depois de um pequeno inquérito pelas redondezas, apercebi-me que é uma personagem de uma ambiguidade sexual flagrante. Há quem diga que é um macho e há quem diga que é uma fêmea, mas muitos nunca se tinham interrogado (até existe um colectivo de activistas LGBT cujo nome se terá inspirado nessa ideia). Todos e todas temos uma dívida para com aqueles e aquelas que lutaram por este momento político, que será, espero, um contributo para que os papéis de género não sejam uma forma de aprisionamento e castração, mas sim de identificação, afirmação e crescimento pessoal.
De todas as experiências, imagens e emoções vividas por um fotógrafo de guerra, o que permanece impresso na sua memória? Qual o peso de uma dor, de uma injustiça, de uma morte? Algo que ultrapassa a sua capacidade de raciocinar? E se for algo que o atormenta, uma obsessão equivalente a um impulso suicida? Poderá libertar-se através da pintura, procurar refúgio e combater os demónios recriando-os com pigmentos numa superfície despojada? É o que procura o protagonista desta história, um texto de leitura algo dolorosa e que ganharia, a meu ver, com alguma economia narrativa (um conto de 40/50 páginas não ganharia em eficácia e impacto?). Talvez o escritor de origem cartagenense, ele próprio jornalista, tenha necessitado de espaço para expor os seus próprios demónios. De resto, a descrição do desafio que é pegar nos materiais, dominá-los e transformá-los em médium das imagens no cérebro é bastante bem feita, como poderá asseverar quem já tentou calcorrear essa estrada.
Foi num sábado, entre chás e (muitos) bolinhos, biscoitos e outros doces: seis mulheres em estado de gravidez, juntas ao vivo e a cores. Resultado? Trocas de ecografias, conselhos de alimentação, cremes e vestuário, bitaites sobre o papel dos homens e sobretudo uma conversa deliciosa, sem censuras e cheia de pequenas peripécias que tive a sorte de partilhar (e que me fez lembrar outras 'Embroideries'). Uma oportunidade única num ano de excepcional colheita demográfica. Eu, sendo homem, sonhei que estava grávido, e conquistei assim o meu convite. Boa sorte, miúdas! Ah, para os pais: a minha boca é um túmulo!
Outro filme da curiosa selecção distribuída com o Público nas últimas semanas, foi uma boa surpresa. Kitano, com quem descobri uma nova afinidade através da paralisia facial que lhe tolheu a expressão, é um actor que vem da comédia e é ainda uma vedeta nesse registo, no seu país Natal. Ver os seus filmes (e este em particular) é redescobrir o cinema (e o humor e o amor dentro desse cinema) sem dois dos seus maiores ruídos: a palavra e o actor. Tudo é claro como a água que enfeitiça o protagonista e como as emoções que esta pequena história nos desperta.
Um romance (sugestivo título português para o intraduzível original 'Deaf Sentence') que balança na perfeição entre o drama e a comédia, sem sair de um registo intimista, que nos faz seguir o protagonista (um professor universitário recentemente reformado, com uma surdez parcial) como uma sombra nas páginas do seu diário. A melancolia é uma inevitabilidade, mas podemos aligeirar o seu peso com alguma auto-irrisão, é a mensagem que parece sair deste texto. E podemos relativizar os nossos dramas, quando os enquadramos devidamente (veja-se a sequência seca mas eficaz da visita ao campo de Auschwitz) e eles nos fazem crescer, preparando-nos para o futuro (que é, em última instância, o que o pai do protagonista personifica).