terça-feira, 13 de julho de 2010

Mãe



segunda-feira, 12 de julho de 2010

Meter-se em trabalhos

Dizem que verbalizar ajuda a organizar, a identificar problemas e a encontrar estratégias para os ultrapassar. Ultimamente, infelizmente, só consigo verbalizar queixumes, e parece-me que assim só consigo escurecer o que me rodeia (e sobretudo os que me rodeiam) com o negrume que se abateu em mim nos últimos tempos. Motivos? Há-os sempre, se quisermos; acredito que o que varia é a nossa resistência à adversidade e especialmente o olhar que lançamos sobre o mundo. Sou capaz, contudo, de descortinar um foco 'infeccioso' desta espécie de angústia melancólica: o meu trabalho. Dou voltas e voltas mas por muita imaginação e alternativas que procure, não consigo apagar esta descrença estrutural num programa que perdeu há vários anos o potencial inicial. Participo em iniciativas, falo com candidatos, debato (cada vez menos) com os colegas, mas tudo parece contribuir para aumentar a reverberação de uma palavra que ecoa com cada vez mais força na minha cabeça: hipocrisia. Na era das novas oportunidades, tudo está bem desde que não se levantem ondas (quem já tentou negociar uma certificação parcial sabe do que estou a falar). Desse implícito colectivo rumaremos felizes, ignorantes de ego insuflado, para a Europa civilizada. A cumplicidade paga as contas, a cumplicidade certifica, a cumplicidade emprega, a cumplicidade compensa. Traz os mundos e fundos que promete como garantia de felicidade imediata. Mas também corrói, mina o terreno da criatividade, da perseverança, do empreendedorismo, premeia a vigarice e a espertalhice saloia em detrimento desses 'entediantes' princípios que são a honestidade e a justiça social. Procura-se, portanto, um novo olhar ou um novo emprego.

Em trânsito...


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Oficina de ilustração (divulgação)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

"Lo zen e l'arte di andare in bicicleta", de Claude Marthaler


De regresso. Ao lar, à cama de casal, ao trabalho, ao tempo cronometrado, ao presente, ao enredo inescapável da realidade. Quatro dias em Nápoles mais cinco em Stromboli e um regresso de fugida por Roma. Muitas impressões e sensações, pouca vontade de registo. Insónias provocadas por uma diabólica micose nas virilhas pulverizaram os projectos de leitura, com uma pequena excepção: esta simpática reportagem filosófica sobre a odisseia do suiço Claude Marthalier à volta do globo. O título alude a um outro livro, lido há mais de uma década atrás: "Lo Zen o L'arte della Manutenzione della Motocicleta", onde, num registo romanceado, se revelava o mundo visto de uma mota. Nestes dias de canícula, e malgré a simpatia que o 'projecto bicicleta na cidade' me inspira, tenho que admitir que é aos veículos motorizados em duas rodas que reconheço maior eficácia. O que quer dizer que está na hora tirar a Vespa da garagem, consertá-la e abalar por essas ruas fora.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Vedi Napoli e poi muori!


Regresso a Nápoles e Stromboli, nos próximos dias. Até já e bom São João!

domingo, 20 de junho de 2010

"Amores", de Henry Green


Recomendado e traduzido pelo JMS, um belo romance, cuja acção decorre integralmente numa mansão senhorial na Irlanda durante a II Guerra Mundial. Agora editado pela Relógio D'Água, aguça o apetite para conhecer o resto da obra deste autor.

Corrida de São João

Uma hora e vinte minutos para fazer 15 km. Um prémio para o ego, que contava cumprir a empreitada em uma hora e meia. Sol, muita gente, bom ambiente e outra experiência positiva. O circuito de provas portuguesas cresce a olhos vistos e dá vontade de só viajar para sítios onde se consiga tirar o gostinho da corrida.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)


Lidos:
- Levantado do Chão
- Memorial do Convento
- O Evangelho Segundo Jesus Cristo
- A Caverna
- Todos os Nomes
- Ensaio sobre a Cegueira
- A Jangada de Pedra

Contas feitas, é muita hora de leitura, toda ela recomendável. E o que se vai dizer e ouvir dizer sobre a personagem, agora que a fonte secou, não tem a bem dizer importância nenhuma.

Contra os (preencher espaço) marchar, marchar!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Viaggio in Italia

Re(re)visto, a poucos dias do ansiado regresso a Nápoles. Uma homem e uma mulher, uma relação naufragada, uma região em que o passado vive de mãos dadas com o presente e em que a geologia é um espelho dos estados da alma, Rosselini e Bergman às voltas com a redenção das (nossas) almas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Alguém me explica...


... porque é que temos que gramar com as bandeiras portuguesas a propósito de uma modalidade desportiva sobrevalorizada, ao mesmo tempo que impera o silêncio em relação aos verdadeiros campeões, como esta estampa do João Pina, que conquista campeonato atrás de campeonato de judo? A propósito disto, lembro-me sempre da depreciação do meu 'sogro' relativamente ao investimento açoreano na monocultura do leite, completamente contra o que uma racionalidade económica e ambiental minimamente avisada poderia recomendar.
Em baixo, João Pina o adversário.

Odeio mesmo...

... as nortadas todo o ano na costa do Porto e Gaia, especialmente ao tentar fazer uma corrida descansado. É de ficar piúrço (e com os bofes de fora).

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Uma corridinha pelo São João


Já se vêm os manjericos e o alho porro, cheira a sardinhas nas vielas, as varandas estão engalanadas: não há dúvida, o espírito das festas são joaninas instalou-se no burgo. Este ano, participo pela primeira vez nesta corrida da cidade. A vontade se me sentir parte de um colectivo, a possibilidade de calcorrear as ruas sem carros, a competição saudável com as nossas próprias metas, suar por uma causa social: tudo boas razões para escolher um calção sexy, apertar os cordões das sapatilhas e pôr pernas a caminho.

domingo, 13 de junho de 2010

Staying alive

Bicycle Portraits - Staying Alive from Bicycle Portraits on Vimeo.

Banda sonora perfeita para ilustrar o que é pedalar numa cidade como o Porto: ciclovias risíveis, geografia adversa, pisos trepidantes, desrespeito dos automobilistas estão entre alguns dos desafios. O vídeo ilustra uma realidade Sul-Africana e vi-o primeiro aqui.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

"Homossexuais no Estado Novo", de São José Almeida

Trabalho realizado por uma valiosa e atenta jornalista e em boa hora editado pela Sextante, pouco tempo antes de se realizar no nosso país o primeiro casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo. Trata-se de uma interessante e importante investigação, que compila testemunhos pertinentes e documentos relevantes, num registo não académico mas sabiamente eficaz e bom organizado. É como levantar o véu de uma história silenciada e completamente por fazer: a da homossexualidade em Portugal durante o século XX e, com ela, a das histórias de vida de milhares de anónimos e de figuras públicas que ajudaram a construir o percurso recente do nosso país. Destaques pessoais: capítulos dedicados às homossexualidade nas ex-colónias (incluindo no seio do exército) e à ave rara (em todos os sentidos) que foi Mário Cesariny.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Poema



Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca


Mário Cesariny (com 'ilustração' minha)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O que tem de ser...


... tem muita força! Parabéns às recém-casadas, neste dia feliz para elas e para todos os que acreditam no valor da igualdade. Os senhores das trevas, entretanto, estrebucham e, como diria uma colega de luta, começam a sair da toca (vejam, se tiverem estômago, os comentários à notícia). Há que estar atento nos próximos tempos, esta liberdade é ainda uma entidade em gestação, vulnerável e exigente.

domingo, 6 de junho de 2010

No segredo dos deuses #4


Como registo gráfico, a primeira abordagem, com caneta preta, parece-me sempre mais fiel ao espírito do retrato, seja ele de uma paisagem, objecto ou figura humana. Mas talvez nunca ultrapasse o meu desconforto com as cores senão exercitar e experimentar.

No segredo dos deuses #3

sexta-feira, 4 de junho de 2010

No segredo dos deuses #2


Em Portugal, o Partido Os Verdes apresentou recentemente uma proposta de lei que tinha como objectivo aproximar a legislação relativa à prática do naturismo à existente em Espanha, isto é: "que a livre prática de naturismo possa ser feita e legalizada em sítios onde o hábito se haja implementado", dando autonomia às autarquias para deliberar neste âmbito. No país vizinho, a história do nudismo é uma de mobilizações colectivas, convulsões políticas contra o conservadorismo e em prol de uma reaproximação à Natureza. Os espaços são literalmente ocupados por uma população heterogénea e imensamente tranquila (mesmo quando lotadas, as praias são oásis de serenidade). Por cá, confesso que nunca me senti à vontade, nem mesmo nas localizações legalmente assinaladas (e já as corri todas): respira-se sempre um je ne sais quoi de tensão latente, como se a polícia dos bons costumes fosse irromper por entre os mirones a qualquer momento.

No segredo dos deuses #1


Há anos atrás, descobria, com o meu companheiro de então, duas coisas maravilhosas: a minha praia de eleição e a prática de naturismo. Aconteceu no mesmo dia, na costa da Galiza, e desde então uma força magnética impele-me para aquela baía sempre que a oportunidade surge (por exemplo, durante um daqueles feriados cujo motivo não lembra ao Diabo). Nesta esplanada, que uma visita da ASAE trataria de encerrar em dois tempos, as Estrellas de Galicia (cerveja local) acompanhada de cacahuetes são como um repasto dos deuses. A vista é qualquer coisa como esta.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pedalar, trabalhar


Ei-la, em todo o seu esplendor: castanha, com duas rodas, amortecedores atrás e à frente (fundamental no paralelo tripeiro), banquinho com não-sei-o-quê-de-gel-ou-silicone (as partes baixas agradecem), luzinha à frente e outra atrás (dá jeito para sobreviver no túnel da Ribeira), com descanso (excepto para o dono) e montes de mudanças (se alguém precisar de algumas posso dispensar umas 24). Comprada ontem, estreada hoje no percurso casa-trabalho, com o último troço cautelosamente feito a pé (para evitar novos sustos). A duração? Mais coisa menos coisa... o mesmo que com o automóvel (entre 15 a 20 minutos)! Cheguei um pouco suado (talvez em parte fruto do calor) mas já me guarneci com toalhetas húmidas (acessório comum nas carteiras de senhora) e um pequeno desodorizante, tudo guardado na gaveta da secretária. No primeiro dia, já me poupou uma multa de estacionamento (o mesmo não podem dizer os meus colegas de trabalho). Nada mau, para primeiras impressões.

terça-feira, 1 de junho de 2010

"Io sono l'amore", deLuca Guadagnino


De todos os filmes de Visconti, o grande mestre, foi d' "O Intruso", obra terminal do autor, que mais me lembrei quando vi este filme. Não são trabalhos comparáveis, apenas podemos balançar nas analogias porque os tempos, os meios e o olhar são outros. A tentativa, ainda que nem sempre lograda, de encenar uma tragédia no seio de uma família burguesa (milanesa, é preciso especificar), inclui alguns bons momentos de cinematografia, sendo os mais expressivos os menos verbalizados: a dança dos jantares e recepções, o idílio campestre, as elipses narrativas, a música, a riqueza dos detalhes. Depois há uma diva - Tilda Swinton - antiga musa de Derek Jarman e actriz transgressiva, que também produziu o filme e que o carrega com a devida majestade. Muito recomendável (em tempo de vacas magras, verdade seja dita...), sobretudo para quem é capaz de se apaixonar pela visão de uma cidade coberta de neve ou por uma luz de Verão num vestido laranja.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Em contagem decrescente...

... para um percurso reincidente.

domingo, 30 de maio de 2010

"Diários da bicicleta", de David Byrne

Concluo, no mesmo dia em que reincido na bicicleta completando o circuito casa-praia da Madalena (sem desmaios!), o livro que recolhe uma série de reflexões e impressões de David Byrne (músico, artista plástico e, entre outras coisas, uma talking head) nas suas viagens sobre duas rodas. O olhar do autor aponta para múltiplas direcções: desde grandes temas como as políticas urbanísticas, os totalitarismos ou a plasticidade das linguagens artísticas e sociais, até recomendações mais prosaicas sobre segurança na estrada ou indumentárias confortáveis. Sempre com um tom irónico e inteligente (nunca maçador), suficientemente apaixonado para nos fazer ter vontade de visitar aquelas cidades e, sobretudo, encarar a 'ciclo-mobilidade' como parte da solução nas estratégias de desenvolvimento para um futuro muito próximo.

sábado, 29 de maio de 2010

"França"


A nova vaga de desenhos da sobrinha mais velha já reflecte a entrada numa etapa de vida diferente (hoje em dia cunhada de pré-adolescência). Quanto a mim, continua-me a parecer que tudo o que é feito 'fora' da alçada escolar lhes sai mais imaginativo e pessoal (mesmo quando deixa transparecer a influência dos desenhos animados, revistas de moda ou publicidade: mas não é o desenho um filtro expressivo do que nos rodeia?).

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pedalar ou morrer

Homem que é homem não gosta de dar o braço a torcer, não é o que dizem? Pois foi o que eu pensei, em cima de uma bicicleta e a meio de uma senhora subida na viagem experimental do circuito casa-trabalho. Queria perceber quanto tempo demorava e a viabilidade 'física' da empreitada, recorrendo ao empréstimo da 'máquina' da irmã. Resultado: uma quebra de tensão e um desmaio espectacular, mesmo à entrada do edifício (eu cá não faço por menos, os meus desmaios possuem o estranho hábito de ser estrondosos). Colegas, formandos, auxiliares, porteiro, cozinheira, motorista e curiosos rodeavam-me quando despertei os sentidos, momentos antes de me levarem ao hospital para uma verificação mais exaustiva (que dispensei após duas horas e meia de espera infrutífera). Conhecendo o povo do meu trabalho, já sei que a história vai circular durante as próximas décadas sempre que me virem a aproximar com uma bicla. Mas serão um pequeno susto e o escárnio popular capazes de demover a vontade de um homem?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Erupções islandesas numa quinta-feira às 16:15


Vídeo de Michel Gondry

terça-feira, 25 de maio de 2010

Teatro aprisionado


«ENTRADO – gíria prisional que se refere ao indivíduo que acaba de entrar na prisão. Pelas palavras dos actores: “ o acabado de chegar”, “o que não se pode esticar naquilo que diz”, “ o que está sempre à espera”, “o que tem que marcar território”.»
Mais informações aqui.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Há 3 dias...

... a ouvir açoreanos em casa, começo de novo a mergulhar na maresia destas palavras. Gosto da maneira como o meu sogro diz à nossa beira, a olhar para a televisão - "aquilo é um homem lindo!" - como se quisesse mostrar-nos a sua aprovação. Ou a maneira como a sogra se entusiasma a dar-me dicas de culinária, comida rápida e ligeira para esta vida moderna, vivida por famílias modernas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Acamado


Uma corrida sob um Sol abrasador, seguida de um dia inteiro exposto a ventoinhas no local de trabalho. Resultado? Uma amigdalite e uma nova dose de drogas prescritas, na véspera da chegada dos sogros para uma estadia semanal. Dois dias sem sair de casa e com a febre a consumir-me o juízo fazem-me pensar na impotência e dependência de uma pessoa debilitada, para quem, por exemplo, pegar num talher ou mastigar parecem um dos doze trabalhos de Hércules.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

À conversa com ...


Para um homem das ciências sociais, é refrescante perspectivar a vida humana (incluindo a vida social) sob a escala pulverizadora das ciências duras. Tudo pode ser relativizado perante a constatação de que nós, os humanos, somos apenas novatos nestas andanças da vida. Falem com as bactérias: elas sim, são umas senhoras com milhares de milhões de anos de experiências, e muitos outros milhões por cá andarão depois de passarmos a ser uma vaga recordação na história da vida (a última gota da última grande onda do imenso oceano que é a história do universo).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Bike appeal...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Intolerância

Como uma nuvem de cinzas vulcânicas que se apodera de um céu azul, sem que ninguém se aperceba, algo toma conta de mim de tempos a tempos. Por dever social ou profissional, confronto-me diariamente com situações em que, de uma forma mais ou menos profunda, sou obrigado a reprimir amargamente o meu incómodo. Reconheço que a minha bitola nem sempre é sociologicamente equilibrada: desprezo no mesmo grau líderes religiosos que incentivam o ódio pela diferença e o abandono do preservativo; condutores de automóveis que tomam conta da estrada de forma assassina; racistas camuflados de benfeitores e pacifistas; assistentes sociais que humilham aqueles que assistem; académicos de ego pesado e cabeça vazia. Na esmagadadora maioria das vezes, estou sozinho na minha indignação e raramente me dou ao trabalho, agora, de a explicar (é que também cansa ser ave rara). Há momentos, porém, em que vergo à minha incapacidade em lidar com a ignorância e a prepotência do universo. E percebo, da pior forma, que também eu aprendi bem a lição dos mestres da intolerância. Ou será aquele nó no estômago apenas um sinal de que preciso de férias?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

17 DE MAIO

No dia Mundial de Luta Contra a Homofobia (saberia disto?), um presidente da república homofóbico promulga a lei da igualdade no acesso ao casamento civil, cedendo assim ao resultado natural de um amadurecimento público e político da questão, o culminar de um trabalho duro que levou anos e que recebeu mais murros que empurrões. O impacto? Só o tempo o dirá. Mas já a partir de hoje, nos lares deste nosso portugalito ensimesmado e conservador, o efeito adivinho-o como a abertura de uma janela que vem refrescar um ar pesado de muquifo (expressão querida cá em casa) e iluminar o rosto de muitos homens e mulheres que tiveram que aprender a viver no escuro desde que o mundo lhes disse que a sua condição era a de ser errante e aberrante. Imagino também pais, familiares, amigos e colegas a parar um momento, a deixar esse momento pousar nas suas cabeças e a ligar aos seus filhos, amigos, tios e colegas para os felicitar. Também vislumbro um retorno da escuridão como onda de choque e ainda há muita coisa a fazer, mas já estamos mais preparados, com os pulmões oxigenados e a vontade indómita.

domingo, 16 de maio de 2010

Bike atitude

Hoje comprei um livro: "Diário da Bicicleta", do David Byrne (sim, o ex-vocalista dos Talking Heads). Pelo que me apercebi, parte do pretexto das suas deambulações diárias em cima de uma bicicleta para um conjunto de divagações mentais e comentários sobre a vida nas cidades. Em casa, pesquisando 'bicicleta'+'Porto' deparei-me com um movimento relativamente recente e organizado de adeptos deste meio de transporte (o mais utilizado em todo o mundo, apesar de tudo), numa cidade onde sempre perspectivei como impossível a circulação em duas rodas. E é verdade que os obstáculos existem: a inexistência quase total de ciclovias e estruturas para 'prender' as biclas, a hostilidade do trânsito automóvel e a geografia acidental são apenas alguns dos mais significativos. E contudo, há muitas coisas irresistivelmente sedutoras nesta proposta: a possibilidade de escapar ao stress automóvel, o exercício físico e descontracção mental, o contributo ambiental ou o factor económico estão entre os mais significativos. O que falta então? Uma resolução e uma bicicleta! Para começar, o compromisso com um test drive na duas-rodas da mana, que gentilmente anuiu num empréstimo temporário. Conclusões em breve. Comentários e propostas de modelos aceitam-se!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Tios de fim de semana


Ele há maior privilégio do que ter duas sobrinhas maravilhosas durante um fim de semana em casa? É uma oportunidade para: pôr brincadeiras em dia; esquecermos-nos do que é ser adulto, enquanto se faz de conta que se é; ler histórias de embalar, cujo interregno é decretado pelo sono merecido de um, dois ou mais intervenientes; mergulhar na piscina e baldar-se às instruções do professor (tentando no caminho ignorar o seu charme evidente); percorrer a beira-mar, visitar Serralves, aprender e ensinar a fazer sapos em papel; aldrabar as regras de todos os jogos que entretanto finalmente saíram do armário (engraçado, esta expressão quase perdeu o sentido literal original...); gerir um pequeno batalhão de colaboradores na cozinha, esse universo tão lúdico e tão pedagógico que se eu mandasse fazia parte de todos os currículos escolares; suspirar fundo, esboçar um sorriso e arrumar os fatos de tios no armário (de novo!), ansiosos por uma próxima oportunidade.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Problemas de digestão na semana papal

Nestes dias de delírios espirituais (mas pouco espirituosos), só dá mesmo vontade de mandar tudo à merda e cometer uma mão cheia de pecados. Por exemplo, invocar o nome do dito cujo em vão durante uma sessão de pornografia homossexual. Se formos muitos, talvez algo neste país entre em combustão herética e as pessoas acordem, por exemplo, para os problemas que realmente afectam a nossa vida terrena.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Amigo é...

Um gajo encontra-se com um amigo. Repara como é raro encontrar-se assim, sem horário nem ordem de trabalhos, sem agendas, metas, discursos programados nem papel estudado. E com um amigo. Um gajo vai jantar, por exemplo, um belo polvo grelhado com batatas a murro, regado com vinho branco. As palavras desfiam o rosário de maleitas e caem no prato, são cortadas, mastigadas e engolidas. Saem outras palavras, mais limpas e arejadas. Segue-se mais um copo, e com o pudim abade de priscos engole-se o amor, o trabalho e a tragédia da vida. Digere-se tudo com um cigarro, até que com o fumo uma luz sai de dentro e entra-se em estado corporal de amizade. Não há dúvidas, um gajo precisa de fazer isto mais vezes.