sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Ser adulto é...

Júri de certificação. Um jovem sentado à minha frente, o olhar inseguro dentro de uma cara pálida e acne de fim de adolescência. Pergunto-lhe como tem corrido esta coisa de ser bombeiro desde os 14 anos e peço-lhe que me fale de alguma experiência mais desafiante deste seu breve mas nobre currículo. A primeira vez que saiu, diz-me, aos 15 anos porque a lei não permitia sair antes, foi por causa de um suicídio na linha de comboio. Fora incumbido de recolher a cabeça do sinistrado, o que resultou numa visão inolvidável. Uma outra vez fora chamado para socorrer uma criança com uma perna partida. A criança afinal era um bebé de seis meses, ao lado do qual esperou uma hora e meia pela assistência que não sabia prestar. Uma hora e meia a olhar impotente para um bebé a morrer. O impulso dos 15 anos foi mais forte e acabou por correr para o hospital, contrariando as regras da etiqueta hierárquica, que também existem nestas instâncias infernais. Não quis ouvir o desfecho. Pedi-lhe para falar do futuro. O olhar saltitante perdera o ritmo e concentrava-se já num ponto qualquer no ar à nossa frente. Ia jurar que se tinha esquecido que ia sair dali com o nono ano na carteira.